Pesquisa publicada na Science utiliza IA para o monitoramento de aquíferos brasileiros
Pesquisa publicada na Science utiliza IA para o monitoramento de aquíferos brasileiros
Estudo inédito foi realizado pelo Serviço Geológico do Brasil, National Aeronautics and Space Administration (NASA) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Brasília (DF) – Um estudo inédito conduzido pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), publicado, nesta quarta-feira (03/06), na revista científica internacional Science Advances, apresenta como o uso de inteligência artificial e dados de satélite podem ampliar o monitoramento das reservas de água subterrânea no Brasil. A pesquisa foi desenvolvida em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a National Aeronautics and Space Administration (NASA) e utilizou modelos avançados para acompanhar mudanças no volume de água armazenada em aquíferos brasileiros ao longo das últimas duas décadas.
A pesquisa consolidou dados de sensoriamento remoto orbital e informações hidrogeológicas geradas pelo SGB a partir da Rede Integrada de Monitoramento das Águas Subterrâneas (RIMAS), do Sistema de Informações de Águas Subterrâneas (SIAGAS) e do Mapa Hidrogeológico do Brasil. Esse conjunto de dados foi processado via técnicas avançadas de inteligência artificial, que permitiram espacializar, com alto nível de detalhe, as variações dinâmicas do armazenamento das águas subterrâneas em todo o território nacional.
Para superar o desafio histórico da escassez de dados observacionais na hidrogeologia, o estudo reuniu dados de cerca de 400 poços da rede RIMAS com observações das missões GRACE, MODIS e GPM, da NASA. Os pesquisadores treinaram modelos com mais de um milhão de pontos de informação. “Essa abordagem metodológica permitiu a reconstituição histórica da dinâmica hidrogeológica nacional desde 2002, ampliando a capacidade de análise em regiões desprovidas de medição direta”, detalha o pesquisador do SGB Clyvihk Camacho.
O cientista da NASA Goddard Space Flight Center Augusto Getirana ressalta que o trabalho é um marco para o país e representa uma “revolução no entendimento das águas subterrâneas brasileiras”. Segundo Getirana, a pesquisa inédita pode servir de exemplo para outros países. “Com o uso de dados de satélite da NASA e de inteligência artificial, fomos capazes de extrapolar observações in situ relativamente escassas e espacializar em áreas remotas. Levando em conta que dados da NASA são abertos ao público e que nós tornamos os códigos desenvolvidos open source, outros países com monitoramento precário serão os que mais se beneficiarão com o réplica da metodologia”, afirmou.
Avaliação da disponibilidade hídrica
Os resultados mostram que, apesar da vasta disponibilidade hídrica do país, existem regiões, especialmente no centro e leste do Brasil, onde os aquíferos apresentam sinais de redução no armazenamento. “Essas mudanças estão associadas à convergência de eventos climáticos extremos, alterações no uso e ocupação do solo e ao aumento da demanda por água”, explicou Camacho. As águas subterrâneas representam 98% de toda a água doce líquida no Brasil, com uma recarga anual estimada em 1.900 km³.
Segundo os dados, o país registrou um déficit acumulado de 530km³ de água subterrânea entre 2002 e 2022. Essa expressiva perda volumétrica equivale a quase oito anos de consumo total de água no Brasil. A retração das reservas foi mais acentuada na região centro-norte de Minas Gerais, no oeste e sudeste da Bahia, e em setores dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Entre os sistemas aquíferos mais afetados estão o Urucuia, Bambuí, Pantanal e Bauru-Caiuá.
Em algumas regiões, foi observada a heterogeneidade do armazenamento, com áreas de aumento e redução dentro de um mesmo sistema, o que evidencia a complexidade da gestão hídrica em escala continental, como explica Camacho. “Grandes sistemas como Bauru-Caiuá, Urucuia e Parecis desempenham papel fundamental como reguladores naturais, estabilizando as variações climáticas e hidrológicas”, destacou.
Os resultados reforçam a importância do monitoramento contínuo para subsidiar políticas públicas voltadas à segurança hídrica, especialmente após os alertas emitidos pela ONU em janeiro de 2026 sobre o agravamento da crise hídrica global.
De acordo com o pesquisador, fenômenos climáticos como El Niño e La Niña podem influenciar diretamente as taxas de recarga. Embora as projeções para o decorrer de 2026 ainda estejam em consolidação, os dados permitem inferir uma tendência de redução do armazenamento no Sudeste.
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